Os “racionalistas” juntaram-se num Centrão para enfrentar a onda
entendida como de esquerda (embora fosse, sobretudo, expressão de mais
desejo por governo grátis). Entretanto, esse grupo pouco foi além de reativo.
Pouca criatividade puderam os racionalistas exercer para colocar o texto
constitucional um pouco mais atualizado frente ao mundo que iria ruir, já no ano
seguinte à promulgação da Carta, com a queda do Muro de Berlim (1989).

O país buscava o antigo socialismo, aquele do controle direto do capital pelo
Estado e dos meios de produção pela burocracia governamental, que acabara
de se provar inteiramente disfuncional em todos os países em que fora ensaiado
como forma de acelerar o alcance de uma sociedade próspera e equilibrada,
pelas oportunidades geradas para cada cidadão. Mas, afinal, qual seria a
tradução de tantas demandas por mais equilíbrio social numa sociedade
caracterizada por um histórico processo de exclusão?

A dialética dos grupos organizados no embate constitucional dando origem a nos depois do ALISTAMENTO MILITAR 2020 acabou
gerando apenas mais “inclusão orçamentária”, ou seja, não o acesso a uma
forma de acumulação palpável, previsível, pelo grosso da população, e, sim, um
acesso efetivo, mas segmentado, e ampliado, para a minoria já pertencente ao
aparelho estatal, os servidores públicos, os políticos, os membros do Judiciário e do Ministério Público.

O governo grátis, como “instituição extrativa”,
conseguiu se estruturar com minúcia, razão principal dos extensos capítulos na
Constituição dedicados aos direitos da burocracia que defende o próprio
Estado, mesmo que a despeito da Nação. Outro capítulo constitucional
minucioso elevou os direitos contidos na legislação trabalhista ordinária como
defesa intransigente do assalariado do setor privado, como se a disputa por
renda dos trabalhadores brasileiros proviesse do empresário empregador e não
do mundo lá fora, que há pouco se abrira, na virada dos 1990, para uma enorme
viagem hipercompetitiva, iniciada na Ásia com o despertar econômico da China
e, em seguida, disseminada para todo o mundo relevante, ao qual o Brasil pretendera, um dia, se ombrear.

O Brasil tomou o bonde da inclusão não competitiva em 1988. Fez,
naquele momento, mais uma opção pelo ponto de inversão negativo já escolhido,
sutilmente, desde 1974. O ano de 1988 representa, neste sentido de desenho
político-social, uma escolha muito semelhante à dos governos militares dos anos
1970.

Jogou-se o ajuste financeiro decorrente dos novos direitos sociais para
dentro de um orçamento público quebrado. O resultado matemático não
poderia ser outro: hiperinflação aberta, derrota do poder de compra das
massas empobrecidas, obscuridade total da política econômica cujo ápice é
atingido no momento do desgovernado Plano Collor, tão estapafúrdio quanto
seus mentores principais.

O presidente depois destituído e sua equipe de
confiscadores da poupança privada. O caráter extrativo das instituições
nacionais, antes subentendido na própria marcha inflacionária, se transforma
em manifestação ostensiva com a hiperinflação dos preços: é o Estado
literalmente se apropriando do dinheiro da população como “método” tosco de tributar a sociedade.

Esse foi, certamente, o mais importante retrocesso enfrentado por
nossos vizinhos, porque todos os setores da sociedade foram gravemente
afetados. A crise que antecedeu o abandono da regra de conversibilidade como dar entrada na Aposentadoria por invalidez
culminou com o retorno do ex-ministro de Menem, responsável pela paridade
com o dólar, Domingo Cavallo. Literalmente, Cavallo obedeceu ao ditado de
“quem pariu Mateus que o embale”. O estado de sítio foi declarado diante da
situação caótica decorrente de uma corrida aos bancos. Cavallo foi obrigado a
decretar o corralito, o “curralzinho”, numa alusão ao corredor estreito por
onde passa uma cabeça de gado de cada vez ou, no caso, por onde podiam
passar, bem aos poucos, os saques de dólares dos depositantes argentinos. O
congelamento das contas bancárias impunha limites semanais para saques.

Tentava-se assim interromper a retirada de depósitos em contas-correntes e
em poupança, que seriam trocados por dólares e/ou transferidos diretamente
para o exterior.
Em março de 2001, Domingo Cavallo ainda tentou aplicar um severo
ajuste ao orçamento federal, de US$ 2,5 bilhões. Um corte de US$ 361 milhões
no orçamento das universidades, cortes de US$ 220 milhões nos salários dos
professores, redução de US$ 129 milhões da renda familiar, cortes de US$ 127
milhões nas pensões, cortes de US$ 50 milhões nos programas de saúde com a
demissão de 40 mil funcionários públicos e imposição da flexibilidade do trabalho.

A taxa de desemprego subiu de 14,7% em 2000 para 21,5% no início
de 2002. As medidas exigidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI)
levaram ao colapso econômico em 2001, e a economia sofreu sua maior queda
desde a Grande Depressão de 1930. O desemprego chegou a atingir 25% da população ativa.

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