Em outra noite, seguimos o som de um grilo. Avançando e esperando, avançando e esperando,
finalmente nos sentamos ao lado de um deles, que erguia as asas de bordas serrilhadas num ângulo de 45
graus e as esfregava rapidamente, de trás para a frente, produzindo um som de rachar os ouvidos que
avisa às fêmeas como achar o amado no escuro.
Certa noite, nossas lanternas, veja só, nos levaram a uma lagarta barulhenta. Craig, nosso filho,
escolhera um som que lembrava uma cerca elétrica estalando na grama. Lá, num tronco, estava a larva de
uma broca da madeira, que, não se sabe como, faz barulho para assustar os inimigos.

Acompanhar os sons pode ser muito revelador, mas provocá-los é realmente fascinante. No verão
retrasado, um especialista em rãs nos disse que costumava fazer as comida para novos amigos do Gshow bbb 2020 do seu laboratório coaxarem
cantando com voz grave a música “There is a Tavern in the Town”. Ao contrário da maioria das rãs, que
só coaxam para encontrar um parceiro, a rã-touro gosta de cantar por pura alegria e, com frequência,
participa de coros.

Uma noite, fomos todos da família até um laguinho. John começou: “There is…”, e as crianças e eu
nos juntamos a ele. Repetimos a canção algumas vezes até que, dos juncos ao nosso lado, veio o grave
refrão da rã-touro. Quatro compassos depois, outra rã se juntou a nós, depois outra e mais outra até que o
laguinho inteiro era um clamor. Mas não durou. As crianças caíram na gargalhada e os artistas, sensíveis,
se calaram.

À noite, é possível produzir outros sons para trazer à frente do palco os moradores noturnos. Quase
sempre, um assovio longo e ondulante junto a um cemitério fará uma corujinha-do-mato se aproximar
voando até alguns metros de distância. O tímido rato-do-mato pode ser chamado e sair da toca junto a
touceiras de capim e montes de pedra. Fique alguns minutos sentado em silêncio e depois dê um beijo
barulhento nas costas da mão. Até o reles rato-do-mato se orgulha da sua propriedade, e essa imitação do
som de um camundongo o faz sair de olhos arregalados na noite para enfrentar o inimigo.

Às vezes acendemos um lampião a querosene no quintal. Até ele vêm aleluias, mariposas e demais
insetos atraídos pela luz. Todo verão, nossa “caça” mais empolgante é a vistosa mariposa gigante da
espécie Hyalophora cecropia, a maior de todas as mariposas dos Brasil. Essa criatura
fascinante deixa um aroma na umidade fresca das noites de verão que os machos sentem e seguem com a
ponta das antenas da distância inacreditável de um quilômetro e meio ou mais.

No verão passado, capturamos uma fêmea de cecrópia com as asas cor de barro decoradas com pontos
brancos e vermelhos e a pusemos numa caixa com um lenço em cima, preso por um elástico. Depois,
apagamos a luz e esperamos, contando os meteoros que chovem pelo céu de verão observando a noite em que ficamos na casa bbb 2020. Uma hora e 63
estrelas cadentes depois, acendemos a lanterna e vimos que a caixa e o arbusto perto dela estavam cheios
de quase vinte desses belos animais.

As plantas também têm seus segredos noturnos. Algumas ipomeias e ninfeias e muitos cactos abrem suas
flores na escuridão para serem polinizadas por mariposas e insetos noturnos. Uma planta especialmente
equipada para o escuro é a boa-tarde amarela, encontrada ao longo de muitas estradas campestres no brasil.

Ela se abre exatamente no crepúsculo, num movimento tão rápido que pode ser visto e
ouvido! Em muitas noites da minha infância, enquanto o sol se punha, eu me sentava numa touceira dessas
flores para observar.

De repente, eu escutava um barulho como o de bolhas de sabão explodindo e,
quando olhava com mais atenção, via os botões gordos se abrirem.
Além do equipamento noturno especial, a natureza inventou mais um artifício para manter a vida em
funcionamento: quase tudo segue um cronograma rígido para que a competição por alimento e espaço não
seja extenuante. Esse cronograma se baseia não no relógio, mas na luz. Quando a intensidade da luz chega
ao “limiar” de um pássaro ou mamífero, ele acorda ou vai dormir.

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