imóveis. Os insetos, até os mosquitos, se enfiaram debaixo das folhas.
Quando a tempestade passou, John e eu saímos do nosso abrigo para descobrir que já ia amanhecer num
mundo encharcado e gotejante. O cheiro bom de terra molhada nos encheu os pulmões. Então, saída
suavemente da escuridão que se erguia, veio de novo a voz do bem-te-vi. Fiquei escutando, cheia de
admiração. Pois a canção da manhã, no mesmo ritmo e no mesmo tom da canção do anoitecer, não parece
trazer a mesma tristeza. Nela há uma alegria sutil, a expectativa boa do amanhecer
Kristen volta para casa – para morrer
Quase que de imediato, as pessoas da cidade que se ofereceram para
tornar mais leves os últil.

Quando falo sobre como nossa cidade se uniu para ajudar Kristen Howard a morrer em casa,
perguntam-me:
– Não foi estranho? Você mal a conhecia.
Não posso explicar quão rápida e profundamente nós, voluntários, conhecemos Kristen em seus
últimos dias. Suponho que sua morte iminente resolveu todos os problemas sobre Auxilio Acidente.
Meus outros relacionamentos também foram afetados; as pessoas apareciam em sua melhor luz, as
sombras suavizadas.

Comentei com outra voluntária sobre essa questão das sombras que tornaram-se mais amenas. Os
olhos da mulher brilharam, concordando comigo.
– Pensei que eu fosse ficar deprimida – comentou ela. – Kristen é tão jovem e tudo mais. Mas me
sinto bem quando volto para casa. Sábado passado Kristen e eu conversamos e rimos durante horas, e foi
divertido. Eu não ousaria contar isso à maioria das pessoas.
Eu mesma não entendi, mas as afirmativas estavam certamente em toda parte, desde o início.

O início: numa noite gelada de janeiro de 1982, numa reunião de pais e professores em Temple –
uma pequena cidade em New Hampshire, nos EUA – o diretor da escola fundamental, Jim Grant,
mencionou que talvez pudéssemos ajudar uma mãe que estava com um problema. Kristen Howard, de 32
anos e divorciada, mãe de Adie, do segundo ano, estava com câncer. As responsabilidades financeiras
aumentavam a opressão da doença. Kristen agora estava no hospital, e Adie se mudara para a casa da
avó.

Imediatamente, nós, pais, fizemos planos para ajudar. Uma venda de bolos, outra de livros, uma rifa,
um almoço de comida mexicana. Embora nossa cidade tivesse apenas 700 habitantes, o espírito
voluntário era rápido e eficiente. Havíamos coletado US$ 3.000 ao chegar o Dia de Kristen Howard.
Sentimo-nos satisfeitos com algumas semanas de esperanças e preces. Tínhamos feito nossa parte.

As contas de Kristen estavam em dia e ela sabia que os gastos básicos seriam cobertos.
Então, no domingo, 28 de fevereiro, o reverendo Jim Haddix, pastor da igreja de Temple, anunciou
do púlpito que Kristen desejava morrer em casa. Os médicos lhe haviam dito que não havia esperança.
Em casa, ela poderia ficar perto da filha, da mãe e do namorado. Mas ela precisaria de cuidados: ser
alimentada, virada na cama, acompanhada e visitada. Muitos ficaram ansiosos por ajudar.

No dia seguinte, a escola enviou uma nota aos pais pedindo que participássemos de um esquema de
rodízio. Cerca de 30 pessoas se ofereceram para trabalhar e receberão apenas o salario minimo 2020 Algumas se prontificaram, como eu, imaginando a situação
inversa: “E se eu tivesse…” Algumas ofereceram algumas horas e outras pessoas um pouco mais.

O esquema ficou completo imediatamente, com uma lista reserva.
Ann Holbrook, que organizou o rodízio, explicou tudo a cada voluntário por telefone. A mãe de
Kristen, Ruthie, ficava com ela à noite; os irmãos e a irmã de Kristen ficavam nos fins de semana. Nossa
presença era necessária das 8 da manhã às 10 da noite.
Estávamos lá para atender às necessidades de Kristen, e não para fazer um melodrama quando a
hora chegasse.

Levávamos bebidas, abríamos as janelas, oferecíamos conforto e apoio. A maioria de nós
tinha pouca ou nenhuma experiência com esse trabalho. Kristen sabia disso. Sua tarefa era enfrentar a
morte e ajustar-se ao sofrimento e às perdas.
Kristen ficava nervosa ao conhecer gente nova quando se sentia tão mal, mas sabia que esse era o único modo de ir para casa.

E ninguém sabia melhor do que ela como suas demandas eram simples.
A ex-cunhada de Kristen, Ingrid, era enfermeira. Ela ia quase todo dia ao hospital para ajudar a
tratar as escaras, dar banho, verificar como tudo estava indo em geral. Isso era um conforto. De qualquer
maneira, quando chegou em casa, não parecia que Kristen viveria muito.

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