Pessoas fazem cálculos de ser aprovado financiamento estudantil

As pessoas diziam que ele era amargo. Talvez elas tivessem razão, ele não
sabia ao certo. Ele nunca tinha pensado mais detidamente sobre o assunto. As pessoas o
chamavam de “antissocial” também, e Ove presumia que isso significava que ele não
gostava lá muito de gente. E com isso ele até que podia concordar. As pessoas em geral
não eram mesmo muito inteligentes.

Ove não era de jogar conversa fora. Ele já havia percebido que isso era uma
grande falha de caráter hoje em dia. Hoje as pessoas têm que ser capazes de tagarelar
sobre qualquer coisa com qualquer maluco que esteja a um palmo de distância delas, só
porque é “divertido”.

Ele não sabia fazer isso. Talvez fosse por causa de como ele fora
criado. Talvez os homens da sua geração nunca tivessem se preparado o suficiente para
um mundo em que todo mundo só falava de fazer as coisas, mas ninguém realmente as
fazia. Agora as pessoas ficavam diante de suas casas recém-reformadas gabando-se como
se elas mesmas as tivessem construído, mais não se lembram que é preciso ter contribuído com o imposto de renda 2020.

E elas nem tentavam fingir que era diferente: elas se
orgulhavam disso! As pessoas não davam mais valor a saber assentar direito um assoalho
sozinhas, ou reformar um banheiro, ou colocar pneus de inverno no carro. Saber fazer
alguma coisa direito era algo que não valia mais nada. E se você de repente só pudesse
comprar as coisas, de que valeria? De que valeria um homem?
Ove sabia muito bem que os amigos da mulher não compreendiam por que
ela, de livre e espontânea vontade, acordava ao seu lado e decidia compartilhar o dia com ele. Nem ele compreendia.

Ele fazia uma estante para ela, e ela a enchia de livros de
pessoas que escreviam páginas e mais páginas sobre sentimentos. Ove entendia de coisas
que ele podia ver e pegar. Concreto e cimento. Vidro e aço. Ferramentas. Coisas que se
podia contar. Ele entendia de ângulos retos e instruções claras. Maquetes e plantas.
Coisas que podia desenhar num papel. Ele era um homem em preto e branco.

A única coisa que ele tinha amado antes de vê-la pela primeira vez eram os números. Ele
não tem nenhuma lembrança especial da juventude além deles. Ninguém o intimidava
nem ele intimidava os outros; não era bom para aprender se tem direito a restituição de imposto 2020.

Ele nunca ficava no meio e nunca ficava de fora, ele era alguém que simplesmente estava lá.
Ove também não se lembra muito da infância e da adolescência, ele nunca foi o tipo de
homem que fica lembrando coisas à toa. Ele se lembra, sim, que era bastante feliz, e que
alguns anos depois não era mais.
E se lembra dos números.

Que enchiam sua cabeça. Lembra-se de como
queria que as aulas de matemática começassem logo. Para os outros talvez elas fossem
uma tortura; para ele, não. Ele não sabe por quê. Nem fica especulando sobre isso. Ove
nunca entendera por que as pessoas insistiam em saber como as coisas eram como eram.

A gente é o que é, e faz o que pode fazer, e é bom que seja assim, pensa ele.
Ove tinha sete anos quando os pulmões da mãe pifaram numa manhã de
agosto. Ela trabalhava numa indústria química. Nessa época não se sabia muito sobre
doenças respiratórias e segurança no trabalho, Ove compreendeu mais tarde. Ela também fumava sem parar.

A lembrança mais clara que Ove tem dela é de como ficava sentada na
janela da cozinha da pequena casa de subúrbio em que eles moravam, com aquela névoa
ao seu redor, olhando para o céu, todo sábado de manhã. E que às vezes ela cantava, e
que Ove ficava sentado embaixo da janela com o livro de matemática no colo escutando,
disso ele também se lembra. A voz dela era fraca, e uma nota ou outra saía errada, às
vezes, mas ele se lembra de que gostava mesmo assim.

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